Kiss of Life -Sade

Só pelo amor vale a vida!


-Orison Swett Marden-

POESIA

Peace - CHASSÉRIAU, Théodore (1819-1856)

Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia desse momento
inunda minha vida inteira.

-Carlos Drummond de Andrade-

Dá-me lírios

Le Poème de l'âme - Souvenirs du ciel - Anne François Louis Janmot (1814-1892)

Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
de me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios-
Os melhores lírios-
E as melhores rosas
Sem receber nada,
a não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.


-Álvaro de Campos (Pessoa: 1888-1935)-

Soneto III

Moonlight by a river - Kamenev, Lev Lvovic 1833 - 1886

Aspero amor, violeta coronada de espinas,
matorral entre tantas pasiones erizado,
lanza de los dolores, corola de la cólera,
por qué caminos y cómo te dirigiste a mi alma?

Por qué precipitaste tu fuego doloroso,
de pronto, entre las hojas frías de mi camino?
Quién te enseñó los pasos que hasta mí te llevaron?
Qué flor, qué piedra, qué humo mostraron mi morada?

Lo cierto es que tembló la noche pavorosa,
el alba llenó todas las copas con su vino
y el sol estableció su presencia celeste,

mientras que el cruel amor me cercaba sin tregua
hasta que lacerándome con espadas y espinas
abrió en mi corazón un camino quemante.

-Pablo Neruda-

Love Me Tender by Cage in Wild at Heart

Um dos meus filmes preferidos. Este filme evoca o amor na sua grandeza, uma história de amor verdadeiro e que resiste a tudo...

Navio naufragado

Moonlit Seascape With Shipwreck - Aivazovsky, Ivan Constantinovich

Vinha de um mundo
Sonoro, nítido e denso.
E agora o mar o guarda no seu fundo
Silencioso e suspenso.

É um esqueleto branco o capitão,
Branco como as areias,
Tem duas conchas na mão
Tem algas em vez de veias
E uma medusa em vez de coração.

Em seu redor as grutas de mil cores
Tomam formas incertas quase ausentes
E a cor das águas toma a cor das flores
E os animais são mudos, transparentes.

E os corpos espalhados nas areias
Tremem à passagem das sereias,
As sereias leves dos cabelos roxos
Que têm olhos vagos e ausentes
E verdes como os olhos de videntes.

-Sophia de Mello Breyner Andresen-

Água Morrente

Le Poème de l'âme - Le Passage des âmes - Anne François Louis Janmot (1814-1892)

Meus olhos apagados,
Vede a água cair.
Das beiras dos telhados,
Cair, sempre cair.

Das beiras dos telhados,
Cair, quase morrer...
Meus olhos apagados,
E cansados de ver.

Meus olhos, afogai-vos
Na vã tristeza ambiente.
Caí e derramai-vos
Como a água morrente.

-Camilo Pessanha, Clepsydra-

Noites são sonhos

Le Poème de l'âme - Le Vol de l'âme - Anne-François-Louis Janmot (1814-1892)

"Há quem diga que todas as noites são de sonhos. Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. Mas no fundo isso não tem muita importância. O que interessa mesmo não são as noites em si são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre. Em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado."

-Shakespeare-

II - GOSTO DE ...

Snow Scene - Aldrich, George Ames, 1872-1941


...NEVE

I - GOSTO DE ..

Coquelicots (Papoilas), Claude Monet

PAPOILAS
A Soul Brought to Heaven - Bouguereau, William-Adolphe

Once in a Million Years



sad

Where The Wild Roses Grow


They call me The Wild Rose
But my name was Elisa Day
Why they call me it I do not know
For my name was Elisa Day
From the first day I saw her I knew she was the one
She stared in my eyes and smiled
For her lips were the colour of the roses
That grew down the river, all bloody and wild
When he knocked on my door and entered the room
My trembling subsided in his sure embrace
He would be my first man, and with a careful hand
He wiped at the tears that ran down my face
...
On the second day I brought her a flower
She was more beautiful than any woman I'd seen
I said, "Do you know where the wild roses grow
So sweet and scarlet and free?"
On the second day he came with a single red rose
Said: "Will you give me your loss and your sorrow"
I nodded my head, as I lay on the bed
He said, "If I show you the roses, will you follow?"
...
On the third day he took me to the river
He showed me the roses and we kissed
And the last thing I heard was a muttered word
As he knelt (stood smiling) above me with a rock in his fist
On the last day I took her where the wild roses grow
And she lay on the bank, the wind light as a thief
And I kissed her goodbye, said, "All beauty must die"
And lent down and planted a rose between her teeth
...

- Nick Cave -
Ophelia - John Everett Millais

Deve chamar-se tristeza
Isto que não sei que seja
Que me inquieta sem surpresa
Saudade que não deseja.

Sim, tristeza - mas aquela
Que nasce de conhecer
Que ao longe está uma estrela
E ao perto está não a Ter.

Seja o que for, é o que tenho.
Tudo mais é tudo só.
E eu deixo ir o pó que apanho
De entre as mãos ricas de pó.

- Fernando Pessoa -

...

Meditation - Pierre Cécile Puvis de Chavannes (1824-1898)


Numa sala de aula, havia várias crianças. A dada altura uma delas perguntou à professora:

- "O que é o amor"?

A professora sentiu que a criança merecia uma resposta à altura da pergunta inteligente que fizera. Assi, e como estava na hora do recreio, pediu para que cada aluno desse uma volta pelo pátio da escola e trouxesse o que mais despertasse nele o sentimento de amor.

As crianças saíram apressadas e ao voltarem, a professora pediu à crianças que mostrassem o que haviam trazido.

A primeira criança disse: - "Eu trouxe esta flor, não é linda?"
A segunda criança falou: - "Eu trouxe esta borboleta. Veja o colorido de suas asas, vou colocá-la na minha colecção."
A terceira criança completou: "Eu trouxe este filhote de passarinho. Ele havia caído do ninho."

Terminada a exposição, a professora notou que havia uma criança que tinha ficado quieta todo o tempo. Ela estava vermelha de vergonha, pois nada havia trazido. A professora dirigiu-se a ela, e perguntou:

- E tu, porque não trouxeste nada?

E a criança timidamente respondeu: - Desculpe, professora. Vi a flor e senti o seu perfume. Pensei em arrancá-la, mas preferi deixá-la para que seu perfume exalasse por mais tempo.
Vi também a borboleta, leve, colorida! Ela parecia tão feliz que não tive coragem de aprisioná-la. Vi também o passarinho caído entre as folhas, mas, ao subir a árvore, notei o olhar triste da sua mãe e preferi devolvê-lo ao ninho.
Trago comigo o perfume da flor, a sensação de liberdade da borboleta e a gratidão que senti nos olhos da mãe do passarinho. Como posso mostrar o que trouxe?
A professora agradeceu à criança e deu-lhe nota máxima, pois ela fora a única que percebera que só podemos trazer o amor no "coração"!

Escrito por: (autor desconhecido)
Reverie - Maxfield Parrish (1870-1966)

No remedy for black hate?
Who says?
Just love
And love more,
That's all.

- Sri Chinmoy -
Anacréon arrachant une plume des ailes de l'amour - PAJOU, AUGUSTIN (1730-1809)


"Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte."

- Alexandre O'Neill -

"Sê"

Harvesting - Samuel Palmer (1805-1881)

Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser uma ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.

Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.

- Pablo Neruda-

Máquina do Tempo

Penumbra - Frederick Hart (Lucite Sculptures)


O Universo

é feito essencialmente de coisa nenhuma.

Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.

Espaço vazio, em suma.

O resto, é a matéria.


Daí, que este arrepio,

este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,

esta fresta de nada aberta no vazio,

deve ser um intervalo.


-Alberto Caeiro-

Take this waltz

Le Poème de l'âme - Adieu - Anne-François-Louis Janmot (1814-1892)


Nos bosques, perdido, cortei um ramo escuro
E aos labios, sedento, levante seu susurro:
era talvez a voz da chuva chorando,
um sino quebrado ou um coracao partido.
Algo que de tao longe me parecia
oculto gravemente, coberto pela terra,
um gruto ensurdecido por imensos outonos,
pela entreaberta e humida treva das folhas.
Porem ali, despertando dos sonhos do bosque,
o ramo de avela cantou sob minha boca
E seu odor errante subiu para o meu entendimento
como se, repentinamente, estivessem me procurando as raizes
que abandonei, a terra perdida com minha infancia,
e parei ferido pelo aroma errante.

- Pablo Neruda -

SILENCE


Silence - Henry Fuseli (1741-1825)

Jewel - Foolish Games

A PAZ

Reflections - Frederick Hart (Lucite Sculptures)


A alva pomba da paz voou aos céus serenos.

Embaixo homens se agitavam
entre gritos e tiros.

Paquidermes mecânicos
sulcavam fossos
rasgando trincheiras.

Cansada de librar-se nas alturas
a pomba da paz
buscou na terra um pouso
e flechou
num vôo reto
rumo a uma coisa imóvel
hirta e muda no raso campo verde.

E pousou
calma e triste
sobre as mãos cruzadas de um cadáver.

-Menotti del Picchia-

Noite

The Bridge: Nocturne - Julian Alden Weir (1852-1919)

As casas fecham as pálpebras das janelas e dormem.
Todos os rumores são postos em surdina,
todas as luzes se apagam.

Há um grande aparato de câmara funerária
na paisagem do mundo.

Os homens ficam rígidos,
tomam a posição horizontal
e ensaiam o próprio cadáver.

Cada leito é a maquete de um túmulo.
Cada sono um ensaio de morte.

No cemitério da treva
tudo morre provisoriamente.


-Menotti del Picchia-
Constantinople Au Soleil Couchant - Félix Ziem (1821-1911)

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

-António Gedeão-

Eva Cassidy - autumn leaves

Sun Rising through Vagour - Joseph Mallord William Turner (1775-1851)


AMOR, agora nos vamos à casa

onde a trepadeira sobe pelas escadas:

antes que chegues, alcançou teu quarto

o verão nu com pés de madressilva.



Nossos beijos errantes percorreram o mundo:

Armênia, espessa gota de mel desenterrada,

Ceilão, pomba verde, e Yang Tsé separando

com antiga paciência os dias das noites.



E agora, bem-amada, pelo mar crepitante

voltamos como duas aves cegas ao muro,

ao ninho da longínqua primavera,



porque o amor não pode voar sem deter-se:

ao muro ou às pedras do mar vão nossas vidas,

a nosso território regressaram os beijos.



(Pablo Neruda)

Caravaggio

The Mountain Brook - Albert Bierstadt (1830-1902)

8

The Shipwreck - Ferdinand Hofbauer

8
borboletas filiformes sobrevoam estes regatos tardios
escondem-se nos torrões da terra lavrada e desovam
plátanos espalham folhas semelhantes a complicados mapas topográficos

mais além
um acampamento cigano

caminho para a noite mas não tenho frio
é só o início dum provável outono
o acampamento recorta-se em contraluz
quando agressivos insectos trabalham recantos nómadas da memória

os ciganos possuem a sabedoria dos fogos acesos ao entardecer
quem poderá afirmar que um deles
o mais jovem
não aprende o mistério das cartas?
ou a mágica vida das linhas da mão?
a essa hora transmite-se de pai para filho
a arte dos insuspeitos ofícios do coração

as casas surgem de repente iluminadas por dentro
a paisagem envolveu-se de solidão
pressinto a força perfumada da terra subindo
ao medo da recente noite

Al Berto
(de TRABALHOS DO OLHAR, 1979/82, in O Medo, Assírio & Alvim, 1997)

Ápice

The Hand of God - Rodin

O raio de sol da tarde

Que uma janela perdida

Reflectiu

Num instante indiferente-

Arde,

Numa lembrança esvaída,
À minha memória de hoje Subitamente...
Seu efémero arrepio
Ziguezagueia, ondula, foge,

Pela minha retentiva...
-
E não poder adivinhar

Por que mistério se me evoca

Esta ideia fugitiva,

Tão débil que mal me toca!...

-Ah, não sei porquê, mas certamente

Aquele raio cadente

Alguma coisa foi na minha sorte

Que a sua projecção atravessou...
Tanto segredo no destino de uma vida...

É como a ideia de Norte,
Preconcebida,

Que sempre me acompanhou...


-Mário de Sá Carneiro ( Dispersão)-

Convite da Loucura

Love by John Everett Millais

"A Loucura resolveu convidar os amigos para tomar um café na sua casa. Todos os convidados apareceram. Após o café, a Loucura propôs:
- Vamos brincar às escondidas?
- Escondidas? O que é isso? - perguntou a Curiosidade.
- Escondidas é uma brincadeira. Eu conto até cem e vocês escondem-se. Quando terminar de contar, eu vou procurar, e o primeiro a ser encontrado será o próximo a contar.
Todos aceitaram, menos o Medo e a Preguiça.
-1,2,3,... - a Loucura começou a contar.
A Pressa escondeu-se primeiro, num lugar qualquer. A Timidez, tímida como sempre, escondeu-se na copa de uma árvore. A Alegria correu para o meio do jardim. Já a Tristeza começou a chorar, pois não encontrava um local apropriado para se esconder. A Inveja acompanhou o Triunfo e escondeu-se perto dele debaixo de uma pedra. A Loucura continuava a contar e os seus amigos iam-se escondendo. O Desespero ficou desesperado ao ver que a Loucura já estava no noventa e nove.
- CEM! - gritou a Loucura. - Vou começar a procurar...
A primeira a aparecer foi a Curiosidade, já que não aguentava mais pois queria saber quem seria o próximo a contar. Ao olhar para o lado, a Loucura viu a Dúvida em cima de uma cerca sem saber em qual dos lados ficar para melhor se esconder. E assim foram aparecendo a Alegria, a Tristeza, a Timidez...
Quando estavam todos reunidos, a Curiosidade perguntou:
- Onde está o Amor?
Ninguém o tinha visto. A Loucura começou a procurá-lo. Procurou em cima da montanha, nos rios, debaixo das pedras e nada do Amor aparecer. Procurando por todos os lados, a Loucura viu uma roseira, pegou um pauzinho e começou a procurar entre os galhos, quando de repente ouviu um grito. Era o Amor, gritando por ter furado o olho com um espinho. A Loucura não sabia o que fazer. Pediu desculpas, implorou pelo perdão do Amor e até prometeu segui-lo para sempre. O Amor aceitou as desculpas.
Hoje, o Amor é cego e a Loucura acompanha-o sempre."


Autor anónimo.

Pink Floyd "Shine On You Crazy Diamond"


Num deserto sem água
Numa noite sem lua

Num país sem nome

Ou numa terra nua


Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.


-Sophia de Mello Breyner-

Todos os dias agora acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava com sensação nenhuma: acordava.

Tenho alegria e pena porque perco o que sonho

E posso estar na realidade onde está o que sonho.

Não sei o que hei de fazer das minhas sensações,

Não sei o hei-de ser comigo.

Quero que ela me diga qualquer coisa par eu acordar de novo.

Quem ama é diferente de quem é.

É a mesma pessoa sem ninguém.


-Alberto Caeiro-

Blogger Templates by Blog Forum