CHEGUEI À JANELA




Cheguei à janela,
Porque ouvi cantar.
É um cego e a guitarra

Que estão a chorar.


Ambos fazem pena,
São uma coisa só
Que anda pelo mundo

A fazer ter dó.

Eu também sou um cego
Cantando na estrada,

A estrada é maior

E não peço nada.


-Fernando Pessoa-


Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mão e as paredes de Elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

-Mário Cesariny de Vasconcelos-

Há-de flutuar uma cidade

há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho
da noite os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade

-Al Berto-

Melancholia


The history of melancholia
includes all of us.


-Charles Bukowski-

Leonardo da Vinci (Mozart's Requiem)


Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando —
a delimitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco.

Mário Cesariny

Soneto XLIV

Se minha carne fosse pensamento
A distância jamais me reteria;

Apesar dos espaços, em um momento,
E bem longe, a ti eu chegaria.

Que importa onde meu pé pudesse estar,
Em que terra de ti tão afastada ?

O pensamento salta terra e mar
Só de pensar na terra desejada.

Morro ao pensar que não sou pensamento,
E que sonhar distâncias não consiga;

Sou feito de água e terras, os elementos
Que ao tempo ocioso e à minha dor me obrigam.

De lentos elementos me resigno,
A ter somente as lágrimas, seus signos.

A um dia de verão como hei de comparar-te ?
A um dia de verão como hei de comparar-te ?

Vencendo-o em equilíbrio, és sempre mais amável!
Em maio o vendaval em ternos botões disparte

E o estio se consome em prazo não durável.
Às vezes, muito quente, o olho de céu fulgura,

Outras vezes se ofusca com a sua tez dourada;
Decai da formosura, é certo, a formosura,

Pelo tempo ou o acaso é enfim desadornada:
Mas teu verão é eterno, e não desmaiará,

Nem hás de a possessão perder tua beleza,
Vagando em sua sombra, o fim não te verá,

Pois neste verso eterno ao tempo, tu te igualas:
Enquanto o homem respire, e os olhos possam ver,
Meu canto existirá, e nele hás de viver.

-Shakespeare-
Y aún me atrevo a amar
el sonido de la luz en una hora muerta,
el color del tiempo en un muro abandonado.

En mi mirada lo he perdido todo.
Es tan lejos pedir. Tan cerca saber que no hay.

-Alejandra Pizarnik-
Eu cantei este amor sem que soubesses.
Falei de ti com as palavras mais limpas,
viajei (sem que soubesses) no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.

Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
Em tudo o mais usei de parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo.

Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando (sem que soubesses) por tudo o que fazias.

-Fernando Assis Pacheco-
C'est tellement mystérieux le pays des larmes...

Antoine de Saint-Exupéry

Claude Monet


Somos folhas breves onde dormem
aves de silêncio e solidão.
Somos só folhas ou o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
cada ave se transforma noutro ser.

Eugénio de Andrade ( Poesias-1945-1965)

Sorry Seems to Be the Hardest Word - Dee Dee Bridgewater


Só conhecia a versão do Phil Collins, mas devo dizer que esta versão interpretada por Dee Dee Bridgewater é...simplesmente...fantástica.

Luciano Pavarotti sings "Caruso"

Moon River

GOSTO DE TI

Eva Cassidy - over the rainbow

Carole King - So Far Away



And all that's left is loving you forever

Now and forever, i will always think of you...

i will always love you

If I died today would anyone attend my funeral ? Would anyone really care if I died ? If I die tomorrow would anyone weep in sorrow ? The people I know, would they cry over me or would they simply forget I was even here ? They say roses are red. They say dreams come true. Tell me why they never come through for me. Why do roses turn black at the slightest touch of my hand ? People tell me I'm traveling the wrong path that I'm lost and confused that I should listen to the ones who knew best for me. If I died today would it rain or would it shine ? Would people care that I'm gone ? Would there be someone who longed to hear my voice ? If I die tomorrow would anyone shed a tear over me ? Would anyones heart suffer in grief or would there just be an endless sigh of relief for my life that's no more ? If tomorrow never comes for me would anyone shed a bitter tear of sorrow over me ? If roses are red why are they black to me ? Sorry for your time I wasted. I aint looking for your pity. Just tell me If I died today would anybody cry for me ? If I die tomorrow would you care ? Would anybody care if I died today ? The end is always near !

~ Todd Eric Johnson 1994~

Saudade

Centenário do nascimento de Miguel Torga


"O HOMEM é, por desgraça, uma solidão:
Nascemos sós, vivemos sós e morremos sós."


Miguel Torga

Monet - Woman with a Parasol

I Grieve

"Dance Me To The End of Love" Leonard Cohen



Linda esta música...

If you dont know me by now

WILD IS THE WIND - DAVID BOWIE


"Wild Is the Wind" foi escrita por Dimitri Tiompkin e Ned Washington. Esta música foi inicialmente gravada por Johnny Mathis para a banda sonora do filme Wild Is the Wind, e mais tarde por Nina Simone no seu album Wild Is The Wind (1966).

David Bowie gravou uma versão da mesma em 1976, no album Station to Station. (Bowie era um grande admirador de Nina Simone, e do estilo dela e, após tê-la conhecido em Los Angeles, inpirou-se para gravar esta música e inclui-la no album Station to Station).




Adoro esta música.



Uma das minhas músicas preferidas de David Bowie.

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